Por Camila Fiuza*
As grandes cidades passaram a cobrar das pessoas um custo cada vez mais alto: o tempo. Horas perdidas no trânsito, deslocamentos longos para trabalhar, estudar ou acessar serviços e uma rotina organizada em função da distância revelam um problema central das metrópoles contemporâneas: a dificuldade de viver perto do que é essencial.
No Brasil e no mundo, esse debate ganha relevância com a expansão contínua das áreas urbanas. Mais da metade da população mundial já vive em grandes centros, segundo a ONU. Em São Paulo, onde a Região Metropolitana reúne cerca de 22,8 milhões de habitantes, os desafios de mobilidade, habitação e infraestrutura ajudam a dimensionar a complexidade desse cenário.
Durante décadas, o planejamento urbano esteve orientado pelo crescimento horizontal. Hoje, a questão deixou de ser apenas expandir cidades e passou a ser qualificar a experiência de quem vive nelas.
Durante décadas, o planejamento urbano esteve orientado pelo crescimento horizontal. Hoje, a questão deixou de ser apenas expandir cidades e passou a ser qualificar a experiência de quem vive nelas. Depois da pandemia, essa mudança ficou ainda mais evidente: o tempo ganhou novo valor na rotina das pessoas.
A busca por trajetos mais curtos e por menor dependência do automóvel passou a influenciar também a decisão de compra de um imóvel. Já não basta olhar para metragem ou número de quartos. O que importa, cada vez mais, é a possibilidade de viver perto de transporte, comércio, áreas verdes, escolas, lazer e trabalho.
É nesse contexto que o conceito de Cidade de 15 minutos vem ganhando força no debate global. Popularizado pela prefeita de Paris, Anne Hidalgo, a partir das ideias do urbanista Carlos Moreno, o modelo propõe uma dinâmica em que as pessoas consigam resolver boa parte da vida cotidiana perto de casa.
A proposta parte de uma premissa simples, mas ainda difícil de sustentar no ritmo das grandes metrópoles: reduzir distâncias e ampliar qualidade de vida. Isso exige comércio local ativo, serviços acessíveis, calçadas adequadas, ciclovias, transporte público integrado, áreas de convivência e espaços públicos capazes de fortalecer a vida nos bairros.
Mais do que uma tendência, esse modelo responde a um desafio estrutural das metrópoles brasileiras: como reduzir a dependência do carro sem restringir o acesso da população às oportunidades. A resposta passa por bairros mais completos, conectados e capazes de oferecer uma vida cotidiana mais integrada.
A proximidade urbana também exige olhar para a sustentabilidade. Não há futuro possível sem atenção ao equilíbrio ecológico. Ilhas de calor, drenagem urbana e ampliação de áreas verdes são hoje temas centrais da infraestrutura urbana, e não apenas elementos complementares do planejamento.
Projetos urbanos planejados começam a indicar caminhos para essa transformação. O Cidade Sete Sóis Pirituba, na Zona Noroeste de São Paulo, é um exemplo de empreendimento pensado para integrar moradia, mobilidade, áreas verdes e serviços em um mesmo território. Estruturado em parceria com o ICLEI e alinhado aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU, o projeto prevê a preservação de 97% da floresta nativa existente na área e o plantio de 36 mil mudas de espécies da Mata Atlântica. Ao final, serão mais de 750 mil metros quadrados de áreas verdes, entre parques, praças e áreas de preservação ambiental.
Mas o debate sobre modelos urbanos mais inteligentes também precisa considerar a dimensão social. No Brasil, urbanismo de qualidade ainda costuma estar concentrado em áreas específicas e em faixas de renda mais altas. Para que a Cidade de 15 minutos faça sentido como visão de futuro, ela precisa ampliar o acesso à infraestrutura e não o restringi-lo.
Nesse contexto, o enquadramento do projeto no programa Minha Casa, Minha Vida representa um passo relevante de democratização do acesso à moradia planejada. A combinação entre urbanismo qualificado, integração territorial e habitação acessível ajuda a aproximar soluções mais completas de públicos historicamente afastados desse tipo de desenvolvimento.
Modelos urbanos mais inteligentes não são necessariamente aqueles com mais sensores, aplicativos ou automação e sim aqueles que são capazes de reduzir distâncias, integrar funções e devolver tempo às pessoas.
As grandes cidades brasileiras ainda enfrentam desafios profundos em mobilidade, habitação e desigualdade territorial. Mas já está claro qual é a direção mais promissora: planejar espaços menos excludentes, mais próximos e mais eficientes para quem vive neles.
No fim, o futuro do urbanismo será definido menos pelo tamanho das cidades e mais pela capacidade de fazer as pessoas viverem melhor nelas.
(*) Camila Fiuza é diretora de Desenvolvimento Imobiliário da MRV.
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