Industrializar a construção é condição para reduzir o déficit habitacional brasileiro

Por Conexão Construção 29/09/2026 - 18:13 hs
Foto: Construtora Tenda
Industrializar a construção é condição para reduzir o déficit habitacional brasileiro
Alexandre Regis, diretor Operacional da Construtora Tenda

Por Alexandre Regis*

O Brasil ainda convive com um déficit habitacional de 5,77 milhões de moradias, segundo a Fundação João Pinheiro. Mais do que um desafio quantitativo, trata-se de uma demanda concentrada na população de menor renda: cerca de 75% do déficit está entre famílias que recebem até dois salários mínimos. Tradicionalmente, esse cenário é associado ao acesso ao crédito, à disponibilidade de financiamento e às políticas públicas. Esses fatores são fundamentais, mas existe outro gargalo que recebe menos atenção: a capacidade do setor da construção de produzir habitações na velocidade e na escala que o país precisa.

Nos últimos anos, a construção civil brasileira passou por avanços importantes em gestão, tecnologia e planejamento. Ainda assim, grande parte da produção permanece concentrada em processos executados diretamente nos canteiros de obras, altamente dependentes de mão de obra intensiva, sujeitos às condições climáticas e com menor previsibilidade de custos e prazos. Esse modelo foi responsável por sustentar o crescimento do setor durante décadas, mas encontra limites diante das demandas atuais.

Ao mesmo tempo em que o Brasil precisa ampliar sua capacidade de produção habitacional, o setor enfrenta dificuldades crescentes para contratar profissionais qualificados. A escassez de trabalhadores especializados, somada à menor atratividade das atividades mais operacionais para as novas gerações, cria um cenário em que aumentar a oferta de moradias passa, necessariamente, por elevar a produtividade da construção.

É nesse contexto que a industrialização deixa de representar apenas uma inovação tecnológica para assumir um papel estratégico. Mais do que substituir métodos tradicionais, ela propõe uma mudança na forma de produzir. Parte significativa das etapas construtivas passa a ocorrer em ambientes industriais, com processos padronizados, controle de qualidade, maior previsibilidade e menor exposição às variáveis típicas dos canteiros convencionais.

Os ganhos vão além da eficiência operacional. Métodos industrializados reduzem desperdícios de materiais, racionalizam o uso de recursos, melhoram o planejamento logístico e permitem entregas mais rápidas e previsíveis. Em empreendimentos de grande escala, especialmente na habitação popular, essas características contribuem para ampliar a capacidade produtiva sem abrir mão da qualidade.

A transformação também altera o perfil da mão de obra. Em vez de depender exclusivamente de atividades predominantemente manuais, a construção passa a incorporar profissionais cada vez mais especializados em planejamento, automação, processos industriais, gestão de dados e tecnologias digitais. Essa evolução contribui para tornar o setor mais moderno, competitivo e atrativo para novos talentos.

Naturalmente, essa transição exige investimentos, adaptação regulatória e uma mudança cultural importante. A industrialização não elimina completamente os métodos convencionais, tampouco representa uma solução única para todos os empreendimentos. Mas sua adoção tende a crescer à medida que produtividade, escala e previsibilidade se tornam fatores decisivos para atender à demanda habitacional brasileira.

Outro desafio passa pela formação dos profissionais. As universidades ainda dedicam espaço limitado aos sistemas construtivos industrializados, enquanto o mercado demanda competências cada vez mais alinhadas à manufatura, à digitalização e à integração entre engenharia e tecnologia. Aproximar a formação acadêmica dessa realidade será essencial para acelerar essa transformação.

Superar esse cenário exigirá uma transformação que vai além da ampliação do crédito ou da oferta de terrenos. Também será necessário aumentar a produtividade da construção civil. Em um momento em que o setor enfrenta dificuldades crescentes para contratar profissionais qualificados, produzir mais com qualidade, previsibilidade e eficiência deixa de ser uma vantagem competitiva e passa a ser uma condição para ampliar o acesso à moradia. Essa combinação revela que o desafio da habitação não será solucionado apenas com crédito ou disponibilidade de terrenos. Será preciso construir melhor, mais rápido e com maior eficiência. A industrialização oferece uma das respostas mais consistentes para esse cenário ao combinar produtividade, qualidade, previsibilidade e escala.

Nos próximos anos, o debate sobre habitação precisará incorporar uma discussão que vai além do financiamento: como ampliar a capacidade de produção da construção civil brasileira. A resposta passa pela modernização dos processos, pelo investimento em inovação e pela adoção de modelos industriais capazes de atender uma demanda que permanece entre os maiores desafios sociais e econômicos do país. Industrializar a construção, portanto, não é apenas uma evolução do setor. É uma condição para ampliar o acesso à moradia e responder, de forma sustentável, às necessidades do Brasil.

(*) Alexandre Regis, diretor Operacional da Construtora Tenda